Carnaval Virtual 2023 – ”A Lenda Sucaí – O Tarupá da Friagem”, é o enredo da Rainha Negra em sua volta ao Carnaval Virtual

Marcando o seu retorno ao Carnaval Virtual, a Rainha Negra contará a ”A Lenda Sucaí – O Tarupá da Friagem”, que será desenvolvida pelo carnavalesco Thiago Morganti.

Confira a entrevista concedida pela presidente Solange Fintelman:

1- Como conheceu a LIESV e por que a escolheu?

Eu via meu filho no computador até altas horas no samba virtual e quando vi estava imersa no samba junto com ele. Toda vez que ele arruma a casa pra transformar no estúdio, é um carnaval à parte.

2- Qual a história da sua escola, como e onde foi fundada, qual o motivo, quais as cores, símbolo e nome?

A escola foi fundada por Ricardo Lubasinski, em 2006, em Santa Catarina. Após seu primeiro carnaval, Ewerton Fintelman assumiu a presidência e filiou a escola a LIESV, onde ficou até 2012, quando deu uma pausa indeterminada.

3- Qual será o enredo da sua escola e como ele será contado na passarela virtual (quantas alas, alegorias e demais elementos)?

O enredo será uma lenda amazônica: A Lenda Sucaí – O Tarupá da Friagem. Além de adentrar o imaginário indígena brasileiro, o enredo transmite algumas mensagens implícitas. Aguardem.

4- Como a equipe da sua escola foi montada e quem faz parte dela?

Foi tudo muito rápido. O Ewerton fez contato com o Thiago Morganti e no mesmo dia os dois já estavam com uma alegoria pronta. Ainda estamos definindo intérprete e questões musicais, mas o nosso Mestre Chapatim já está ensaiando a Bateria Couro de Porco.

5- E o samba enredo, vai fazer eliminatórias de samba ou vai encomendar? Se for eliminatórias, quais as regras da disputa, pra onde os compositores devem mandar os sambas e etc?

Encomenda. Acreditamos que há poucos compositores interessados e nós já temos compositores autores de clássicos da escola. Temos fé que eles farão tudo de novo. Por isso a decisão da encomenda.

6- O que você e sua escola esperam do Carnaval Virtual 2023, tanto de vocês quanto das coirmãs?

O grupo de acesso é muito disputado. É claro que visamos o título, mas temos consciência que não será fácil. Mas ficaremos felizes em ficar entre as primeiras. Pelo menos, diferente do carnaval real, aqui temos certeza da idoneidade.

Confira abaixo a logo e a sinopse do enredo da Rainha Negra para o Carnaval Virtual 2023:

Era só mais uma aldeia indígena repleta de hábitos e culturas. Era só mais uma lenda normal de Amazônia até o curupira assobiar, urutágua sua flauta tocar e o vento pujante trazer consigo a friagem:

“Frio, é muito frio É muito o frio, o vento, o vento Frio, é muito frio O vento, o vento, o vento…”

Os Tupari são um povo de coragem. Resistiram ao longo de séculos ao período da colonização, Brasil Império e Brasil República. Apesar da população reduzida ao longo do tempo, esse povo bravo nunca esqueceu seu lendário e sua ritualística. Somente temem os espíritos-maus, os quais chamam de tarupás. Estes tarupás podem ser seres desencarnados e encarnados. Nós, não-indígenas, por exemplo, ao fazer o primeiro contato com os Tupari, acabamos por dizimar muitos ao transmitir doenças tropicais pelos quais não tinham imunidade. Como não ser considerado tarupá trazendo tanto flagelo à aldeia?

Mas, mesmo com todas as doenças do “homem-branco”, o não-indígena, existe um tarupá que os Tupari se arrepiam só de ouvir. Seu nome chega a ser tabu, suas histórias fazem a pele arrepiar e olhos fixarem como num transe. Assim contavam que, ao fechar seus olhos temulentos pelo sono, os indígenas da aldeia Tupari tinham em seus pesadelos a friagem. Não era somente um pesadelo, era o prelúdio.

Em meio à Amazônia Ocidental, as copas das árvores não mais balançavam regendo a orquestra Amazônia, pois o frio que chegava à aldeia Tupari não era somente o mau tempo. O pajé já tinha ciência de sua missão. Precisava de um ritual de proteção. Só ele, com a participação de toda a aldeia, poderia evitar o frio. O pajé traz então o rapé medicinal e orienta que todos da aldeia inalem para que resistam ao frio. Todos deveriam fazê-lo. Era assim a medicina da floresta, era assim a sabedoria ancestral.

Mas uma jovem Tupari não poderia crer que o rapé do pajé tinha poder medicinal e, sem nenhum medo, o recusou. O pajé, tomado pela ira de quem sabia as consequências que a negacionista causaria, profetiza: “não negue a ciência da floresta! Não cesse a paz do nosso povo! Negacionista não sobreviverá. Negacionista morrerá!”.

Em choque, a aldeia inala o rapé, indivíduo por indivíduo, enquanto o cerimonial tribal acontece. O vento se torna uma tempestade. Sopra forte. Flagela. A moça, em insurgência, sofre e, já em convulsão térmica, vê seu corpo ser devorado por si e seu fim chegar. Quando o orvalho se torna gelo e as copas das árvores não mais tocam a sinfonia da natureza, é sinal que tudo congelou. O vento passa a soprar mais forte e o pajé Tupari intensifica a liturgia xamânica rogando contra a friagem, quando, quebrando as águas congeladas do Rio Guaporé com seus passos fortes como dos grandes animais que habitavam a pré-histórica Amazônia cenozoica, surgiu Sucaí. Azulado como o gelo refletindo a luz da lua, com 2 pares de braços, apêndices e protuberâncias na cabeça, ele estava ali.

Sucaí caminhava sob a aldeia com passos que faziam o gelo rachar e a terra tremer. O pajé sentia que quanto maior a friagem menos conseguia se concentrar em suas preces para afugentar Sucaí. Pediu então à sua ancestralidade que seu povo não tivesse seu fim ali. O velho xamã, ao tentar agitar seu maracá, com braços quase congelados, tenta espantar Sucaí para que este levasse consigo a friagem. O pajé então inala novamente o rapé e viaja ao mundo dos mortos, chamado pelos Tupari de pabid /pábid/.

Quando um Tupari morre pela friagem causada por Sucaí, este viaja ao mundo dos pabid. No mundo dos pabid, em seu devaneio, o pajé Tupari conheceu Waitó, o pajé dos pabid. Disse a ele que precisava levar de volta à Terra os Tupari para que lutassem contra Sucaí e evitassem o congelamento de toda a Amazônia. Waitó então ofereceu alimento e a bebida chicha aos pabid Tupari. Assim estariam fortes para voltar à Terra com o pajé Tupari e lutarem contra Sucaí e a friagem.

De volta à aldeia Tupari, o pajé e os indígenas, dançando e cantando em prece, prepararam um círculo de fogo que os aquecesse e que possibilitassem a celebração-ritual. O pajé lançava labaredas de fogo a partir do círculo, mas precisavam de mais força para o fogo ser maior que o frio de Sucaí.

O pajé então decide por dar novamente o rapé medicinal contra o frio aos Tuparis. Após o rapé inalado, os Tuparis se sentem mais fortalecidos e então se preparam para a guerra: preparam arcos, flechas, lanças e tacapes com uma tocha de fogo em suas extremidades. Sob o comando do pajé, lançam juntos uma chama flamejante imensa que atinge em cheio o peito de Sucaí. Este parece que, embora vivo, não mais conseguia ter forças para manter o intenso frio que ali pairava.

Sucaí sentia que cada folha congelada agora transpirava. Os animais da floresta, que pareciam estátuas de gelo, começaram a tomar de volta suas cores. Sucaí estava enfraquecendo. O frio já não era mais congelante. À medida que Sucaí sucumbia, a aldeia e a Amazônia sentiam a vida voltar a pulsar.

O fogo que, desde então, é simbolizado como o círculo da vitória se torna o círculo em ode à vida. É o o círculo que fez perpetuar até os dias atuais a descendência Tupari. Dança, Tupari! Celebra, Tuparí! O frio não mais te arrepia e Sucaí não mais te assombra. O equilíbrio climático do planeta é científico, mas os entendimentos do assunto entre os cientistas se confundem e se corroboram com o lendário indígena. A morte da negacionista mostrou aos Tuparis que a fé e a união são capazes de derrotar qualquer praga que assole nossa grande maloca Terra.

Não se sabe se Sucaí morreu, se imergiu para o fundo das águas do Guaporé ou se está à espreita aguardando quem, um dia, renegar a medicina da floresta. Que o equilíbrio seja respeitado para que Sucaí nunca tenha forças para trazer de volta o frio. Que sejamos calor humano de quem esteve 10 anos fora da folia virtual e quer, depois de tanto frio, incendiar a avenida virtual para mostrar, com humildade, que está de volta!

Justificativa:

Mudanças climáticas tem sido alvo de constantes estudos pelo mundo. O que antes se chamava de “aquecimento global”, se atualizou para o termo supracitado devido ao processo dessas mudanças não se dever exclusivamente ao aquecimento do planeta. A lenda Sucaí, apesar de antiga, se revela mais atual que nunca mostrando de maneira metafórica o que o negacionismo pode causar a uma população. A Rainha Negra, neste carnaval, levanta sua bandeira chamando atenção para o perigo de negar a ciência, negar os fatos locais, regionais e globais.

Não duvide da sabedoria da floresta. Nela existe o veneno e a cura, mas só a sabedoria ancestral perpetuada ao longo de gerações sabe distinguir a cura. Nós, como os Tupari, fazemos parte de uma grande aldeia. Chamada pelos geógrafos como aldeia global, somos seres conectados via internet por frações de segundo e fisicamente por apenas algumas horas. Qualquer bem e qualquer mal que a aldeia global produza, este se espalha pelo mundo rapidamente.

Seja feito o bem, como o carnaval é do bem, pois cura o corpo e a alma da dor. E após tanto “frio” passado ao longo de anos de pandemia de Covid-19, tudo o que a Rainha Negra quer é espalhar o calor advindo da energia da alma foliã de cada um. Demos o suor de nosso trabalho para passar essa mensagem para o carnaval virtual e, quem sabe, para a posteridade tocar corações sobre o fato de que não existe um plano alternativo caso o nosso ambiente se torne severo. Não negaremos a oportunidade de fazer a vida renascer a cada nascer do sol. Vivemos o amanhã como um sonho feliz pra cantar. E sambar!

Autores do enredo: Ewerton Fintelman e Thiago Morganti

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